Mosteiro de Celas – Além dos Claustros e Capitéis


Falar-se do Mosteiro de Celas é, quase sempre, falar-se dos seus claustros, ou dos seus capitéis. O Claustro de Celas! Os Capitéis de Celas! A isso se limitam mesmo alguns livros de arte.

Certamente não é caso único entre nós, ou lá fora. Refiro-me ao facto de um trecho arquitetónico ganhar tal celebridade que, só por si, coloca em lugar de honra o monumento em que se integra. É, portanto, a fama de um Portal, ou de um Claustro, de uma Janela ou de um Retábulo, que dessa forma justificam a visita.

Além do Claustro de Celas

Logo que se entra no Mosteiro de Celas somos imediatamente surpreendidos. Sem dúvida que o claustro é uma maravilha, “o mais importante claustro dos séculos XIII e XIV”, com afirma Reynaldo dos Santos. Claro que, só por si, justificaria certamente uma ida a Coimbra. Mas, entretanto, irá descobrir que o Mosteiro de Celas contém muitas outras belezas. Surpreendentemente irá verificar que este espaço possui aquele especial encanto em, que se misturam o ambiente monástico com a elegância, o espaço equilibrado e não grandioso, mas, em contrapartida, com a dignidade monumental de cada trecho.

E por isso digo, com toda a certeza, que se justificaria plenamente visitar o Mosteiro de Celas mesmo sem a sua obra-prima, o claustro.

Caraterísticas do Mosteiro

Começa pela frontaria do mosteiro nos brindar com uma original composição, de singelo desenho, mas que desperta singular simpatia. No andar cimeiro, uma galeria coberta abre nove vãos gradeados – era o solário de Inverno.

Frontaria do mosteiro e igreja
Entrada principal do Mosteiro

Abaixo, a parede branca é rasgada por quatro vãos desiguais e sem qualquer simetria, ma funcionalmente colocados e magistralmente relacionados: o portal renascentista, com frontão e pináculos, legendado e datado de 1530: uma porta lateral, também legendada e ornamentada com uma coroa de espinhos; sobre a porta, uma janela com lintel de deliciosa sanefa de sabor gótico; uma estreita fresta ao lado do portal.

Construído no século XIII, o mosteiro conheceu vários períodos de restauros, especialmente nos séculos XVI e XVIII, que lhe acrescentaram valores e, por certo, diminuíram de outros.

A Igreja do Mosteiro de Celas

Do átrio entra-se na igreja por uma porta datada de 1753. As armas do Reino fecham as nervuras da abóbada manuelina sobre a nave circular da igreja, bela obra do arquiteto João Português com a colaboração de Gaspar Fernandes, realizada em 1529. Como resultado, ao ver a igreja pronta, Dom João III gostou tanto que pagou integralmente o seu custo, 157 mil réis.

Esta, assim como muitas outras obras quinhentistas, deveu-se à notável abadessa Dona Leonor de Vasconcelos, filha dos condes de Penela que, em todas elas, mandou esculpir coroas de espinhos com a inscrição “Dominus meus decoravit me”.

Interior da igreja do Mosteiro de Santa Maria de Celas
Interior da igreja

O património da igreja conserva algumas peças de arte, como por exemplo, uma tábua – Anunciação – talvez pintura flamenga, e uma escultura – Piedade. Seis notáveis pinturas manuelinas que integravam o antigo retábulo do altar-mor, atribuídas à oficina de Coimbra geralmente designada por “obras do Mestre do Sardoal”, foram levadas para o Museu Machado de Castro.

Azulejos conimbricenses, setecentistas, revestem as paredes da igreja.

Igualmente setecentistas são os retábulos de talha do altar-mor, bem como os dos altares que ladeiam o arco cruzeiro – sobre este, a par, as armas de Portugal e da Ordem de Cister.

Capelas laterais da igreja

Do mesmo modo observamos que numa das pequenas capelas abertas para a nave, dedicada à infanta Dona Sancha, fundadora e monja do mosteiro, o altar e o teto foram feitos pelo famoso arquiteto e escultor quinhentista João de Ruão. Todavia subsistem nessa capela azulejos seiscentistas.

Em seguida encontramos o coro, de grandes dimensões, com cadeiral de duas filas, frente a frente. Abre-se, assim, sobre a igreja, por arco assente em pilastras dóricas, guardado por forte e bem desenhada grade de ferro e flanqueado por dois outros arcos que garnecem altares de talha dourada.

Nicolau de Chanteren, o mestre que é considerado o introdutor da escultura renascentista em Portugal, fez, em 1526, a porta do coro para a antecâmara da sala do capítulo.

A sacristia

Na sacristia figura um alto-relevo de escola coimbrã, que fizera parte de um retábulo, representando São Martinho a dividir a capa com o pobre.

O Claustro de Celas

Por fim, o esplêndido claustro que revela obras de diferentes épocas. A última terá sido no século XVI, quando era abadessa Dona Maria de Távora.

Claustro do Mosteiro de Celas
Claustro do Mosteiro de Celas

No lado sul, a parede da galeria reveste-se de azulejos em xadrez verde e branco. Abrigada num nicho de madeira pintada, encontramos uma imagem quinhentista da Virgem Maria, parecendo aguardar o regresso das monjas cistercienses.

Galerias baixas, abertas em arcarias de volta plena, que assentam em pares de colunas com capitéis conjugados. Este é, sem dúvida, o mais precioso conjunto escultórico da época de D. Dinis.

Para alguns não se sabe quando foi feito, embora para outros o mosteiro data de 1308 a 1311. Supõe-se terem pertencido estas arcadas ao Estudo Geral da Universidade e depois cedidas por D. João III. Mas há quem diga que não, pois dessa forma não explicaria a presença das imagens de S. Bernardo e de S. Bento.

Vergílio Correia e Nogueira Gonçalves classificaram por temas os capitéis em quatro grupos:

  1. Iconográficos com cenas da Vida de Cristo e um deles com assuntos dos santos;
  2. Figuras não hagiográficas;
  3. Decoração de quimeras
  4. Decoração vegetal.

Assim, esta magnífica obra escultórica escapa às imposições ou recomendações da regra cisterciense. Nesse sentido, toda a obra deveria ser despida de qualquer decoração, as naves monásticas deveriam corresponder à mesma disciplina e ascetismo da vida no interior do mosteiro.

O mais importante, no entanto, parece ser o seu valor, a beleza ímpar do claustro, de cada capitel. Ver e dizer com Frei Maur de Cocheril: “Reencontrei os meus amigos capitéis, as deliciosas figurinhas, um tanto fustres, mas cada vez mais belas.”

História do Mosteiro de Celas

Em princípio, o Mosteiro fora concebido para 30 religiosas. Obra da infanta D. Sancha, uma das três filhas de Dom Sancho I, ficou operacional entre 1210 e 1219. O mosteiro foi implantado na quinta de Vimaranes, propriedade do rei Dom Sancho, e nele fez a infanta voto de castidade perante o bispo de Coimbra. Desse modo, professou e levou vida monacal de rigorosa observância até falecer, a 13 de Março de 1229.

Quando, no século XIX decidiram extinguir ordens religiosas, por se tratar de convento de mulheres, permitiram manter-se como recolhimento enquanto restasse alguma. Morreu a última religiosa em 1882 e assombrava-se quem visitava o belo mosteiro com o seu estado de ruína e, dessa forma, ficaram visíveis as provas da miséria em que viveram as últimas monjas.

Surpreendentemente, em 1891, foi anunciado o leilão de parte do mosteiro, ressalvando apenas os capitéis que existem no claustro, que seriam retirados e guardados no museu arqueológico.

O bispo de Coimbra e gentes de cultura insurgiram-se contra tal afronta ao património e, dessa forma, conseguiram evitar a venda.

Todavia, por essa altura já o mosteiro fora parcialmente profanado.

Atualmente, o Mosteiro de Celas é Monumento Nacional, protegido pela seguinte legislação: Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910 / ZEP, Portaria, DG n.º 7 de 09 janeiro 1960 / Portaria n.º 223/2011, DR, 2.ª série, nº 11 de 17 janeiro 2011

Conteúdo adicional sobre o mosteiro

Em 1996 foi para o ar um episódio de um programa da RTP apresentado pelo historiador José Hermano Saraiva intitulado “Três Anjos e um Demónio“. Neste episódio, Hermano Saraiva fala sobretudo sobre Sancha e outras três filhas do rei D. Sancho I. O episódio é filmado, parcialmente, no Convento de Celas.

Poderá assistir a esse episódio aqui. (com a cortesia dos arquivos da RTP)

Localização

O Mosteiro de Celas está situado em Coimbra, perto da Avenida Bissaya Barreto.

Poderá ver mapa aqui (abre em nova janela) https://goo.gl/maps/GTnViZSn5ZjcS18x9

Custa apenas 1€ visitar a Igreja e o Claustro (na data em que foi escrito este artigo).

Bibliografia e referências

Fotografias

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