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Perseguição aos Cristãos-Novos em terras do Alentejo

A Perseguição aos Cristãos-Novos é um tema oposto aos temas que gostamos aqui de tratar. Mas, quem gosta de história, não pode selecionar apenas os grandes feitos heróicos do povo lusitano. Há períodos, que mesmo analisados com a mentalidade daquela época, são claramente períodos negros. No entanto, não devemos esquecê-los. Pelo contrário, devemos recordá-los para que a mentalidade coletiva não permita que algo do género se repita.

Quem eram os Cristãos-Novos?

Cristão-novo, também chamado de Converso ou Convertido, era o nome atribuído aos judeus convertidos ao cristianismo e aos seus descendentes. Por outro lado, existiam os cristãos-velhos que eram os verdadeiros ou genuínos cristãos. Esta designação teve início logo após a conversão forçada de judeus feita em 1497, já no reinado de Dom Manuel I.

A Expulsão dos Judeus – Pintura de Roque Gameiro

Como surgiram tantos judeus em Portugal?

Para dar algum contexto histórico a esta situação, recordo que em 1492 um decreto dos reis católicos, Dona Isabel e Dom Fernando, rompeu com uma longa tradição de tolerância religiosa em Castela, Leão e Portugal. O édito foi publicado a 31 de março: os judeus de Castela e de Aragão eram obrigados a converterem-se ao cristianismo, sob pena de serem expulsos de Espanha num prazo máximo de quatro meses.

No final do prazo dado pelos reis católicos, em julho de 1492, milhares de judeus atravessaram a fronteira, tendo Dom João II permitido a entrada dos refugiados. Nomeou também locais onde poderiam ser integrados: Olivença, Arronches, Figueira de Castelo Rodrigo, Bragança e Melgaço. No entanto, muitos deles fixaram-se nas grandes cidades.

Dom João II morre em 1495 e é seu cunhado e primo direto, Dom Manuel, quem herda a coroa. Nos primeiros anos do seu reinado, os judeus viveram em paz, tendo mesmo o rei escolhido um judeu, Abraão Zacuto, para seu médico particular. Mas foi então que Dom Manuel propôs casamento a Dona Isabel, viúva de Afonso e filha mais velha dos reis católicos. A proposta foi aceite com a condição de o rei português expulsar os judeus do país.

A escolha entre a expulsão e a conversão

Em novembro de 1496, D. Manuel I casou com D. Isabel e, logo no mês seguinte, de forma a cumprir com o prometido, decretou a ordem de expulsão dos judeus. Seriam então obrigados a sair do país até finais de outubro do ano seguinte. Se não cumprissem, seriam condenados à morte e todos os seus bens seriam confiscados pela coroa. No entanto, a decisão não recolheu consenso no Conselho de Estado, que alertou para a fuga de capitais do país. Dessa forma, em formato de incentivo, o rei adicionou ao decreto de expulsão que aqueles que se convertessem ao cristianismo poderiam permanecer no país. E agendou um prazo para o batismo: a Páscoa de 1497. Mesmo assim, a perseguição aos Cristãos-Novos continuou…

Os primeiros judeus em terras do Alentejo

Embora provável, desconhecem-se indícios seguros da fixação dos Judeus em datas mais recuadas, e um fragmento de um epitáfio do ano de 482 d.C., com a figuração de um candelabro de sete braços (menorah), encontrado na Basílica Paleocristã de Mértola, é considerado o mais antigo testemunho da presença de judeus na Península Ibérica.

Na Idade Média, formando já uma comunidade importante, os judeus passam a estar confinados em bairros isolados (judiarias), subordinados a um quadro legal específico. Documenta-se, assim, a existência de uma Sinagoga em Santarém, reconhecida quando Afonso Henriques a conquista aos Mouros em 1185.

Em Castelo de Vide, a pequena sinagoga medieval foi transformada em museu. Embora o edifício não tenha sido construído de raiz para o efeito, a parede da oração estaria orientada a Nascente, onde se localiza a estrutura que a tradição local identifica como um Tabernáculo.

Sinagoga medieval em Castelo de Vide (transformada em Museu)

Os finais do século XV vêm alterar por completo esse status quo. Os planos de hegemonia portuguesa na Península Ibérica levaram D. Manuel a uma política ambígua, primeiro com a aceitação dos judeus expulsos de Castela, e depois com a publicação édito de expulsão em 1497.

Dessa forma, a trágica solução encontrada, com conversão dos judeus através de um batismo forçado viria transformar o judaísmo numa religião clandestina. Nos anos seguintes, numa política continuada de eliminação das referências religiosas, as sinagogas de Tomar (Museu Abraão Zacuto), Guimarães e Montemor-o-Novo são adaptadas a cadeias municipais.

Mesmo após séculos passados, a pesada herança da ação do Tribunal da Inquisição na perseguição religiosa aos judeus marca um dos períodos mais negros da História de Portugal.

Tribunal da Inquisição em Évora

Num dos capítulos mais negros da sua história, certamente, Évora foi sede orgulhosa de um tribunal autónomo da Inquisição, estabelecido em 1541, no edifício situado ao lado do templo romano.

Palácio da Inquisição em Évora

Estavam sobre a sua alçada todos os crimes atentatórios a fé católica, perseguindo e torturando os cristãos-novos, mas também os heréticos, os sodomitas, os feiticeiros, os bígamos e os ateus. Muitos intelectuais ou artistas como Damião de Góis, Nicolau Chanterene ou o padre António Vieira sofreram a perseguição política ou foram vítimas de processos iniciados por falsas acusações. Muitos outros, entretanto, abandonaram Portugal.

Os Autos de Fé na perseguição aos Cristãos-Novos

Os Autos de Fé, as grandes procissões que terminavam com a morte na fogueira para os principais acusados de judaísmo, celebravam-se assim, com festa e pompa na Praça do Giraldo.

No Museu de Évora guarda-se a arca (cofre) do Tribunal da Inquisição, dos medos do século XVI, e um grande estandarte em seda lavrada com bordados a ouro, do século XVIII (em restauro).

Morte pela fogueira – Perseguição aos Cristãos-Novos

Estatutos Pombalinos

Os Estatutos Pombalinos, de 1772, consagram o estudo da língua hebraica como meio de aprendizagem da sagrada escritura.

Frei Manuel do Cenáculo, o seu principal mentor, estabelece uma cátedra de ensino no Seminário de Beja, e as lápides hebraicas das coleções do Museu de Évora fazem parte desse esforço didático. A Lápide da sinagoga da Judiaria Velha de Lisboa, construída em 1307 e a Lápide funerária do médico hebreu, de 1378, estão agora em exposição no Museu Abraão Zacuto de Tomar.

Referências

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